12 Junho 2026

Netflix e a Arte de Defender o Indefensável: Dos Tribunais Tailandeses ao Stand-up Americano

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Tem uma nova leva de produções na Netflix que parece testar o nosso estômago para gente impiedosa, conectando universos completamente distintos através de uma mesma linha torta: a arte de defender o que não tem defesa. De um lado, temos a ficção crua da Tailândia; do outro, a comédia americana que não pede desculpas.

Vamos começar pelo tribunal. The Evil Lawyer é um drama jurídico tailandês sobre um advogado jovem e idealista que, por uma ironia do destino, acaba precisando da ajuda da defensora mais fria e calculista do pedaço quando é acusado de um assassinato que não cometeu. A série já abre chutando a porta com uma imagem desesperadora: uma mulher grávida chega na emergência sangrando tanto que os médicos acham que vão perder a mãe e o bebê. Corta para alguns meses depois e a mulher está no banco das testemunhas. Ela sobreviveu, mas a criança não, e logo descobrimos que o corpo do bebê foi vendido para um xamã fazer um talismã. A advogada de defesa do xamã, Jittri, argumenta com uma frieza assustadora que, como o bebê nasceu morto, ele nunca foi considerado vivo perante a lei.

A própria assistente dela, que por sinal está grávida, fica tão enojada com essa linha de raciocínio que pede as contas ali mesmo no tribunal. A mãe do bebê, destruída por ouvir Jittri chamar seu filho morto de “pedaço de carne”, joga sangue de porco na advogada. E é aí que a história cruza com Mek, um defensor público que estava de passagem e acaba respingado pelo sangue. Mek é o absoluto oposto de Jittri, um cara cheio de ideais que pegou o caso do dono de uma fábrica de lixo eletrônico que confessou um incêndio criminoso. Parecia um caso ganho e simples para a promotoria, só que Mek sente cheiro de confissão forçada, algo que fica ainda mais óbvio quando ele conhece o filho do réu, que só quer que o circo todo acabe logo.

Cavando um pouco mais, Mek descobre que o cliente era só o segurança da fábrica, e não o dono, e tenta convencer o cara a retirar a confissão enquanto investiga quem armou tudo isso. No meio do caminho, ele esbarra na ex, Ang, que largou o centro de direitos onde trabalhavam juntos para se meter com o partido político da mãe depois de ir a uma festa suspeita num barco. Para piorar, o advogado do outro lado, Techin, é filho do comissário de polícia e tem conexões pesadas, além de saber podres sobre a tal festa que podem ferrar Ang. Quando Techin chama Mek para uma conversinha em casa para usar isso como chantagem, alguém morre no processo e a culpa cai no colo de Mek. A única pessoa que aparece na cela para salvá-lo é Jittri, cobrando um preço bem fora do padrão: ela o defende de graça, mas ele vai ter que virar assistente dela.

O grande lance de The Evil Lawyer é que a série se leva a sério até demais para uma premissa quase exagerada. Jittri é aquela clássica advogada de TV que abraça casos impossíveis e ganha porque simplesmente desliga qualquer noção de empatia e humanidade. O choque entre a bússola moral de Mek, que tem um passado sombrio, e o trator que é Jittri vai ser o motor da série. Ele vai ter que lidar com ela tanto como advogada quanto como chefe, vendo em primeira mão como ela ignora as emoções para focar estritamente na letra fria da lei. E o mais surpreendente é que a série não tem medo de incomodar. Tem um momento tenso no tribunal em que a foto de um quarto cheio de corpos de bebês pisca no monitor. Foi rápido, mas deu pra ver perfeitamente. A maioria das produções hoje em dia foca na cara de espanto dos personagens para não chocar, mas aqui eles jogam a imagem na sua cara para forçar um tom sombrio.

Essa vontade de não poupar o público e de bancar o indefensável nos leva direto para outra aposta da plataforma, que substitui o tribunal pelo microfone: o especial de comédia Tony Hinchcliffe: Man Of The People. Se Jittri choca no tribunal com sua falta de filtros, Hinchcliffe faz o mesmo no palco. Esse não é o primeiro especial solo dele na Netflix, embora seja uma missão quase impossível achar One Shot, que sumiu da internet desde o lançamento há uma década. A grande questão é se esse novo material vai envelhecer bem ou se é só um reflexo exato das tensões do nosso tempo.

Se o nome não te diz nada, Tony é a mente por trás do Kill Tony, um show que começou em Los Angeles e foi para Austin na aba do Joe Rogan (de quem Tony abria os shows). O formato é basicamente um Show de Calouros moderno onde comediantes iniciantes têm 60 segundos para tentar não serem destruídos por Hinchcliffe e seus convidados famosos. O sucesso da transmissão no YouTube durante a pandemia foi um absurdo, lotando arenas e garantindo esse contrato com a Netflix. Mesmo se não curtir esse tipo de formato, você talvez lembre do rosto dele destilando veneno nos roasts do Tom Brady e do Kevin Hart, ou das polêmicas recentes, como a terrível menção a George Floyd ou o momento em que ofendeu Porto Rico inteiro num comício do Trump no Madison Square Garden na reta final das eleições de 2024.

Gravado num palco 360 graus no Celebrity Theatre em Phoenix — o que fez a galera do Reddit fã do Joe Rogan rapidamente comparar com Gringo Papi do Brendan Schaub —, o especial mostra Tony tentando equilibrar ataques e defesas pessoais. Logo de cara, ele rebate as piadas dos próprios amigos da comédia de que ele seria gay. Ele solta que ter uma arma é “como ter um segundo pau” e que a primeira coisa que fez ao chegar em casa foi colocar o cano na boca. Mas logo em seguida ele quebra a expectativa, tentando convencer a plateia de que a piada era sobre suicídio e não sobre homossexualidade. Dá pra ver que ele está genuinamente incomodado com os boatos. Ele solta algo como: “Vocês veem um cara com uma estrutura óssea boa, um pouco de estilo, uma voz um pouco mais fina do que a galera da obra, e já imaginam o cara tomando naquele lugar. Isso sim é muito gay, cara”.

Quando não está se defendendo, ele vai pro ataque interagindo com a plateia. Como um bom cara que fez campanha para o Trump, ele incentiva os brancos do público a gritarem a “palavra com N” no particular quando baterem o dedinho no móvel à noite, como se fosse um analgésico. Ele zoa a própria faxineira latina com a questão da imigração e sugere que Elon Musk deveria mandar imigrantes de volta pela fronteira em foguetes, trazendo abacates e pimenta Cholula na viagem de volta. Ele bate no Biden, enche a bola do Trump e ainda solta que as mulheres do Texas podem driblar a lei antiaborto do estado voando de Spirit Airlines para o Colorado por 35 dólares (uma passagem que, na realidade atual, passa bem longe desse preço). Ele também brinca que sua “raça menos favorita” é a canadense e tem a coragem de dizer para a plateia de Phoenix, que fica no extremo sudoeste do país, que “é bom estar aqui no meio dos Estados Unidos”.

Antes que a fila de quem quer acusar o cara de racismo dobre a esquina (e ele faz questão de dizer que, se você está nessa fila, pode continuar esperando), Tony joga sua cartada de defesa: afirma que cresceu num bairro negro e que ninguém na indústria ajuda mais latinos, pessoas de cor e trans do que ele. Ele reclama com um tom de vitimismo que, de tempos em tempos, o mundo inteiro se volta contra ele e ninguém da plateia vai defendê-lo no Twitter, apenas ficam quietos esperando o próximo episódio de Kill Tony sair na segunda-feira.

Mas a grande ironia que une a ficção tailandesa à realidade dos palcos americanos é a fragilidade por trás da postura intocável. Em The Evil Lawyer, a frieza extrema de Jittri tenta validar um sistema falho e um roteiro muitas vezes absurdo. No caso de Hinchcliffe, por que perder tempo acusando o cara de racismo quando é muito mais fácil simplesmente apontar a falta de construção cômica de verdade no seu stand-up? No fim das contas, a Netflix nos entrega duas produções onde o maior truque é usar o choque para desviar a atenção de suas próprias fraquezas.